Tédio Faz mal a saúde

5 12 2011

O artigo “Ah, o tédio” recomenda, como medida terapêutica, que nos desliguemos da Internet para arrefecer, respirar e repensar o rumo. Eu defendo essa bandeira e prego essa filosofia sempre que o assunto aparece em reunião familiar ou roda de bar. Mas a agonienta mensagem que se esgueira no texto é de que a vida offline mostra-se irremediavelmente tediosa! A entrevistada chega a afirmar que, com um celular na mão, “não teremos mais momentos de monotonia nem períodos em que simplesmente não teremos nada para fazer”. Ela declara que a vida tende a ser extremamente penosa se não pudermos, a qualquer momento, postar uma foto, comentar um acidente ou registrar uma visita a um ponto turístico.

Tédio e monotonia nem sequer aparecem entre aspas e ambos (perguntem ao Houaiss!) exprimem um estado de aborrecimento profundo, avizinhando-se da depressão. “Curtir” momentos como esses (curtir? Facebook?) pareceu-me bastante deletério para alguém que precise parar um pouco e, como preferiu usar a diretora da Intel, reinicializar o cérebro para seguir em frente com novo combustível e novas ideias.

Minha avó costumava dizer que “mente vazia é oficina do diabo”. Não vou entrar no mérito de discutir a existência de forças superiores antagônicas e sua influência em nossas vidas. Mas, quem quer que tenha passado por uma tarde em casa com absolutamente nada de prazeroso pra fazer sabe que o tédio age diretamente no corpo, podendo causar alucinações, acessos de loucura ou vontade de comer parede.

Talvez eu deva dar crédito a uma galhofa do repórter em sua tradução das palavras da antropóloga, mas, qualquer que tenha sido a causa da distorção, será necessário perverter a acepção de tédio e transformá-lo em ócio, o dolce far niente, a boa e velha vagabundagem.

No final do último século, o professor Domenico De Masi popularizou o conceito de Ócio Criativo, defendendo que o descanso do trabalho deve estar “associado à criatividade, à liberdade e à arte.” Concordo que é uma bela filosofia, mas o ócio que trago à tona é pouco ou nada criativo. É um momento solene em que celebramos o nada-a-fazer, olhando para o teto, em estado avançado de preguiça caýmmica.

A gama de atividades extra-Google que interessam e satisfazem é extensa. Namorar no sofá, olhar o filho montar um dragão com peças quadradas de monta-tudo, escutar a chuva na varanda, hipnotizar-se com o barulho dos ganchos da rede, esfregar os pés no carpete com um sorriso idiota no rosto (John McClane tinha razão…), ler um livro deitado na cama, afinar o violão (pra um dia aprender a tocar) ou tranquilamente esperar o achocolatado afundar no leite antes de bebê-lo. E, se a sensação de inércia vem me incomodar, simplesmente penso que existe tempo para todas as coisas. Pois que entrem na fila!

Para melhor aproveitamento dessa fórmula, o universo de coisas das quais precisamos nos desligar deve extrapolar a nuvem cibernética. Também compõem o leque preocupações diárias mundanas e qualquer outra chateação oportunista que venha atormentar nosso sofrido juízo. O filho atacou a dentadas o colega na escola? Despluga! Tem festa de criança sexta à noite? Desconecta! A esposa quer ficar o sábado inteiro (com você!) tostando na praia? Relaxa! Lembre-se de que há sempre escolhas. Faça a sua e viva tranquilamente com ela.

Um amigo observou uma vez, com ar de piada, que, nos últimos anos, transformamo-nos em “ciborgues funcionais”. Corretíssimo! Ficamos atrapalhados quando não encontramos no bolso um mapa, um GPS, uma enciclopédia, um dicionário ou um conversor de moedas. É saudável nos darmos momentos de vida “selvagem”, sem gadgets e sem eletrônicos, mas convém tomar cuidado para não sermos tragados pela falácia de que “essa modernidade está destruindo nosso modo de vida”. Facilidades tecnológicas devem, sim, ser usadas sempre que for conveniente, quer por diversão quer para outras necessidades não tão recreativas. E, como falou o velho filósofo chinês, nós precisamos ser os controladores e não os controlados.

Em várias ocasiões, li que, por influência da Internet, a atual geração é dispersa e superficial. Essa questão é um terreno árido de vias cáusticas. Supostos vilões como a eletricidade, o automóvel, a Bossa Nova, o Rock’n Roll, a queima de sutiãs e o movimento gay são ícones de revoluções que mostraram ao mundo a postura que muitas pessoas começaram a querer adotar. E, naturalmente, esses conceitos mostraram-se positivos e aderiram à miríade de opções que farão parte da nossa bagagem de escolhas ao longo de nossa existência.

Se a imersão no ciberespaço preocupa, cabe a nós, assim como fazemos com qualquer outra matéria, evidenciar aos filhos, sobrinhos, professores, amigos e colegas os possíveis efeitos de suas decisões, para que tenham substância e possam trilhar sabiamente seus caminhos.

O medo ancestral de novidades e de suas “nefastas consequências” foi essencial para a sobrevivência da espécie humana mas, na aurora do século XXI, já podemos adaptá-lo para que deixe de ser um entrave. O que falta agora? Vão começar a dizer que eu não posso ter renovação celular artificial e que eu não posso viver para sempre?

Vou xingar muito no Twitter…

(Texto de: David Sant’ Ana – G+)

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